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A Saga do Pássaro e o Caos Aéreo. Literalmente!



O caos aéreo causado pelo vulcão Eyjafjallajokull, na Islândia, acabou por ora. Milhões de passageiros presos, no solo, sem saber o futuro de suas viagens ou quando voltariam para suas casas. Entre eles estava nosso amigo Paulo Pássaro, publicitário de São Paulo, que "daria um pulo" em Paris... pois é, o vulcão "pegou ele no pulo".

Leia aqui o (engraçadíssimo) relato da sua saga no Velho Continente e sua batalha contra o vulcão islandês:

"Para quem não sabia, fui e voltei da França. Duas semanas em Paris, para ser mais exato. Mas antes de falar sobre a terra amada de Luis XIV, vale aqui pontuar um evento, no mínimo curioso, que presenciei em solo europeu: O vulcão Eyjafjallajokull.

Rápida enquete

O que a Islândia fez por você nos últimos anos (ou sempre)?
a. nada.
b. alguma coisa, ou melhor, nada.
c. li alguma notícia a respeito... Ah não, era Finlândia... Ok, nada.

Você, brasileiro, cidadão cujos únicos fenômenos naturais com os quais se preocupa são as enchentes e a ressaca (vale ressaltar, tanto a do mar quanto a do "mé") acompanhe a seguir minha jornada caótica resultante de uma nuvem de poeira e vidro causada por um vulcão de nome impronunciável.

Quem poderia imaginar que um mísero país, de 320 mil habitantes (nem um décimo da cidade de São Paulo), coberto de gelo ("Iceland", em inglês) seria berço de um vulcão que "causaria" com a Europa inteira?

O vulcão "causou"

Minha volta estava prevista para o dia 16 de abril, uma semana exata de permanência em Paris. Sem conseguir entrar em contato com a companhia aérea (TAM) levei minha mala de 26kg em um trem de 1 hora até chegar no Aeroporto Charles de Gaulle. Acreditava que "o problema com o vulcão" fosse privilégio dos países nórdicos.

"Senhor, o aeroporto permanecerá fechado até 8:00hs de amanhã. Hoje, haverá uma reunião com a associação de aeroportos da França para decidir a situação dos voos" - traduzindo - "Não sabemos de coisa nenhuma e a lojinha está fechada até segunda ordem."

"Existe algo que a TAM possa fazer? Algum tipo de auxílio?"

"Senhor, a TAM não fornece auxílio pois se trata de um fenômeno natural. A companhia não tem responsabilidade em relação ao ocorrido" - traduzindo - "Êma, êma. Cada um com seus pobrêma."

Lembro-me de como queria ser chamado de "senhor" quando era mais novo. Curiosamente, hoje, a palavra em questão sempre precede uma notícia ruim.

Após a notícia aeroportuária

Passei o final de semana "a mais" em Paris; baladinhas, passeios, restaurantes, cafés. E a taxa de conversão euro/reais ainda mais apurada, é claro.

Lembrem-se, não havia perspectiva alguma de retorno à Patria Amada e Idolatrada (Salve, salve!). A única notícia que tinha não era boa. Incluindo a informação de que o mesmo vulcão já havia entrado em erupção em outros tempos. E permanceu por dois anos! - traduzindo - "Pimba no Passarinho!".

Já era segunda-feira. Quarto dia "plus" em solo francês. Naquele momento, tirava um cochilo em frente ao Louvre. Ainda deitado na grama, depois de inúmeras tentativas de arrancar informações da TAM, fiz uma chamada descompromissada à companhia, através de um número não oficial:

"Oi, eu gostaria de saber se existe alguma previsão de voos para hoje?"

"Senhor, temos uma oportunidade hoje! Não há previsão de voos aqui na França, é verdade, mas a TAM disponibilizou um voo em Madrid para o Brasil."

"Como assim, minha filha?"

"Um grupo de brasileiros da CVC irá com um ônibus fretado pela companhia até Madrid para embarcar nesse voo."

"Só um segundo; eu vou de ônibus até o país ao lado, é isso? Quando?"

"Hoje, 00:00hs em frente ao hotel Ibis na estação Republique."

"Quanto tempo de viagem?"

"Algo em torno de 15 horas."

Naquela altura do campeonato, 15 horas me pareciam um esforço mínimo se comparado à falta de perspectiva de voos na França. Em Madrid, a fumaça vulcânica não havia dado as caras ainda. Talvez fosse minha única chance de retorno imediato ao Brasil. Confirmei minha vaga no ônibus. A moça teclou qualquer coisa em seus registros e afirmou que, seguramente, voltaria ao Brasil no dia seguinte.

"Não existe possibilidade alguma de cancelamento do voo, ou existe?"

"Não. Senhor, o avião estará em Madrid para o embarque às 23:00hs do dia de amanhã"

Iria aprender, apartir de então, que a palavra "senhor" não era garantia de total respeito e/ou compromisso...

"Comboio para Madrid - Uma Confusão do Caramba"

Hospedado na casa de minha amiga Gio soquei as coisas na mala e aguardei, impaciente, o horário do ônibus. Houve até uma despedida entre amigos com vinho e queijos. Curiosamente, o clima era de alegria, não de tristeza... Bom, os amigos sabem nos colocar pra cima (ou seria "pra fora", vai saber).

Carregando uma mochila e uma maldita mala (meu fardo) peguei o metrô e fui direto à estação Republique. Vários hotéis por lá... Nenhum com a bandeira "Ibis" aparente. Procurei aquele com "busões" e "galera" estampados na recepção.

O lugar estava uma zona (com todo o respeito às "casas de tolerância"): uma funcionária, em frente a um dos ônibus, ditava os nomes de alguns passageiros; um outro funcionário passava mais nomes à lista, à caneta, em um pedaço de papel; mais funcionários falavam coisas uns aos outros; famílias e malas amontoadas debruçavam-se para garantir suas vagas; transeuntes, na calçada, queixavam-se da falta de espaço; pessoas exaltadas gritavam; outras, bufavam; eu, coçando a cabeça, repetia a mim mesmo "Ai, ai, ai..."

Sobraram umas 5 pessoas fora dos 3 ônibus disponíveis.
"Ou vocês ou as malas entram" - não foi bem isso que o gerente da TAM no local disse, mas foi o que entendi, tradução simultânea.

"Vocês podem entrar, enviaremos suas malas depois"

"Nem a pau, Juvenal!" - pensei. Os caras já perdem a bagagem do avião (e olha que o trajeto é um só, do check-in para a aeronave) imagina naquela logística duvidosa dos ônibus.

"Ei rapaz, você só tem uma mala?"

"Sim! Só essa daqui!"

"Vem comigo"

Uma outra funcionária da TAM me colocou no ônibus. Só havia um lugar disponível, e minha mala foi atrás, juntamente com outras muitas, incluindo uma guitarra. Sentei-me no único assento vago, ao lado do corredor, perto do banheiro.

"Qual é seu nome? Preciso registrar." - Perguntou a funcionária.

"Paulo Pássaro."

"Pássaro?" - Vocês imaginam quantas vezes passo por essa indagação - "É, que nem Paulo Coelho, mas com maior abrangência de espécies" - gostaria de responder isso, mas geraria mais perguntas.

Sentei-me. Suspirei aliviado... Cedo demais, Batman.

Uma viagem ruim, bancos horríveis. O ônibus foi feito para trajetos de 2 horas, no máximo. Nada comparado aos tradicionais ônibus leito. Dormi em parcelas, fiquei cansado a maior parte do tempo. Foi cansativo, acreditem.

Nas touradas de Madrid

Dezoito horas depois, cortesia de um acidente na estrada que atrasou o horário previsto, chegamos em Madrid. Fim da história?

"Senhores, temos uma notícia ruim..." - avisava o pobre coitado do funcionário franco-português da TAM, no ônibus.

"Ai..." - pensei eu.

"O avião previsto para o voo das 23hs, com a abertura de outros aeroportos, foi realocado para Frankfurt. A TAM já reservou um hotel aqui em Madrid para todos."

"Só instantinho, campeão: a gente não embarca hoje?"

"Infelizmente, não"

Naquele momento, vi o pior dos homens: Todos estavam prontos para voar na jugular do franco-português.

"Vamos para o aeroporto, já!" - gritavam alguns passageiros.

"Nada de hotel! Quero protestar no guichê da TAM!" - esbravejavam outros.

Eu já não queria mais nada, não acreditava em mais ninguém. A expressão "P da Vida" estampada no meu rosto já estava em alto relevo. Sabia dos males da propaganda e da fantasia proporcionada por ela, mas a falta de consideração total da companhia foi dose...

O ônibus não se dirigiu ao aeroporto, deu voltas e voltas: uma estratégia infantil e pouco eficaz de acalmar os ânimos dos passageiros. O relógio bateu 18hs quando finalmente chegamos ao "Auditorium Madrid". Sim, um hotel.

Em suma: gritos, mãos nervosas, gestos intensos e obscenos, dedo na cara e alguns funcionários com o rabo entre as pernas. Houve uma reunião no hotel para "esclarecer" o ocorrido. Novamente, em suma, nenhuma explicação, só mais uma garantia (das muitas já oferecidas): a de um cartão de embarque para cada pessoa presente. Segundo o português (sim, esse agora era "só" português), gerente da TAM local, o cartão de embarque determinava nosso assento no avião para o voo do dia seguinte.

"Ah, tá bom. Será que tem alguma coisa pra comer? Sim, tenho um ticket-refeição!" - transcrição do meu pensamento naquele instante.

E quando descobrimos que os passageiros de um dos nossos ônibus iam, de fato, embarcar naquele dia, então? Afinal, lembrem-se que estávamos em 3 ônibus, só 2 foram para o hotel. Aí, meu amigo. Ferrou! Mais gritos e mais indignação. Eu me sentia como um daqueles caras do porão do Titanic, lutando por um lugar no bote salva-vidas. É claro, tinha que deixar alguns privilegiados sobreviverem, sejam eles de Frankfurt ou do busão VIP.

Explicação sobre o fato? Nenhuma! Chegaram a comentar que os passageiros do ônibus favorizado estavam a mais tempo em Paris desde a explosão do vulcão. Negativo! Eu tinha que ter embarcado no dia 16, o primeiro dia de cancelamento das viagens e eu não estava na área VIP!

"Existe a possibilidade de vocês embarcarem ainda hoje em um outro voo que veio de Milão e está de passagem por aqui" - prometia algo novo o gerente português da TAM

"Alguém estaria interessado?" - perguntava o português...

"Não, não. Quero ficar por aqui mesmo. Sempre quis ser malabarista de semáforo na Espanha" - novamente, tradução de meu pensamento (irônico, vale lembrar).

Enfim, ficou decidido que o voo que vinha de Milão seria reservado aos passageiros com "urgência de embarque": idosos e pessoas doentes ou que usam algum tipo de medicamento. Concordei, por mais dúbio que achasse esse critério de seleção. Depois que vi algumas pessoas forçando o pigarro e falsos gemidos doloridos, levantei e fui para o meu quarto.

Sem mais rodeios, recebemos mais tarde a confirmação que embarcaríamos no dia seguinte para o Brasil.

No último dia, antes da minha famigerada viagem de volta, nós, passageiros frustrados, resolvemos passar um tempo em Madrid, nem que fossem poucas horas. A TAM novamente fez promessas; disse que providenciaria um ônibus para um tour rápido, uma vez que a situação daqueles que ficaram não poderia ser amenizada. Adivinhem se o tour da companhia aconteceu? Pasmem: aconteceu! Não esperávamos por isso (creio que nem vocês, caros leitores). Tanto é que perdemos o ônibus reservado da TAM para o tour. Em vista dos fatos, eu e mais alguns fizemos um tour particular, por conta.

Antes disso, para nos certificarmos de que a companhia não havia mentido em relação às novas passagens, fomos para o aeroporto garantir nossos assentos. Pois é, amiguinhos, não confiávamos MESMO na empresa. Graças ao "Papai do Céu" tudo estava certo. Ainda conseguimos antecipar o check-in: na hora do voo, só teríamos que despachar as malas.

Pensando melhor, o "Papai" foi o mesmo que cobriu o céu com uma cinza asquerosa, logo não estava fazendo mais do que saldar sua dívida para com os fiéis (ou não tão fiéis assim).


Rindo por dentro

Já no aeroporto, check-in garantido e mala despachada, dei um passeio pelo Duty Free. Ao contrário do que as pessoas pensam, não são exatamente os preços que atraem; é a sensação de "levar vantagem" sobre o mercado brasileiro que nos agrada:

"Três pacotes de Toblerone sortidos pelo preço de dois! Dez euros!"

Você acha um preço desses no Brasil? Nem sonhando!

"Pode embalar, muchacha!"

O fato acima foi só para ilustrar o que de melhor estava por vir: o português da TAM comentou que aqueles que estavam a mais tempo esperando na França poderiam ganhar vagas na classe executiva do avião. Eu, como disse anteriormente, só queria que o lusitano deixasse as promessas de lado, o cara já estava em débito com os clientes. Em todo o caso, coloquei meu nome na lista de passageiros "sacaneados" com o número 16 sublinhado à direita. Esse tinha sido o dia da minha suposta partida. Estava fazendo hora extra na Europa há algum tempo e queria que os responsáveis soubessem disso.

E não é que a sorte apareceu?

Ganhei a vaga na classe executiva. Por pouco, já que os idosos tinham prioridade. De "meninão" só havia eu (25 anos) e um outro rapaz (23 anos). Quero só ver quando for idoso, serei insuportável! Estarei no meu direito como cidadão pagador de impostos, não me encham!

Na classe executiva do avião, nunca me senti tão mimado: só faltava a comissária de bordo limpar o queijo parmesão do meu rosto com o guardanapo (de tecido, by the way, nada daquele papelzinho desafortunado)

E eu, que brindei com cidra o ano novo, estava tomando champagne no avião! No entanto, a palavra de ordem é "espaço". É isso que diferencia "executiva" de "econômica". O resto é bônus.

"Por favor, com licença." - indagava o jovem Pássaro, intimidado pelo luxo.

"Sim, em que posso ajudá-lo?"

"As bebidas, existe algum custo adicional? Posso pedí-las a qualquer momento ou só durante a refeição."

"Senhor, à qualquer hora, sem custo." - respondeu sem rodeios a comissária. "Ah. Obrigado!" - traduzindo - "Você é um anjo que embarcou no avião, minha linda!"

Massa com frango, salada, doce de abóbora e vinho. Sem comentários. Estava em êxtase!

Caros leitores, é com esse prato que finalizo a saga vulcânica. Obrigado a todos que leram (pacientemente) minha aventura.
"

Obrigado a você, Pássaro, por compartilhar conosco sua desventura européia.

E um pouco mais de sorte da próxima vez!

Vitor Freesz

Mais sobre as aventuras e trabalhos do nosso amigo Paulo Pássaro no seu blog: http://www.paulopassaro.blogspot.com

















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