Se a palavra Boeing hoje é sinônimo de aviação comercial, quem é a pessoa que deu ao maior fabricante de aeronaves comerciais do planeta seu nome? É o que você vai saber agora.
Reservado, metódico, extremamente inteligente, perfeccionista, irascível. Adjetivos para definir a personalidade de William Edward Boeing não faltam. Filho de Wilhelm e Marie Boeing, dois imigrantes alemães da região da Westphalia que havia chegado aos Estados Unidos em 1868, Bill Boeing nasceu em Detroit em 1881. Seu pai, nascido em Hohenlimburg, pequeno vilarejo ao sul de Dortmund, literalmente mudou-se para os Estados Unidos com uma mão na frente e outra atrás.
De acordo com o filho único de Boeing, William Jr., seu pai era um leitor voraz e decorava tudo aquilo que caía em suas mãos. Era também obsessivo com ordem, limpeza e precisão. Certa vez, visitando uma linha de produção, encontrou um cabo de aileron ligeiramente frouxo. Exclamou exaltado que preferia "fechar sua fábrica imediatamente a ter que imaginar que sua companhia poderia ser capaz de entregar uma aeronave com aquele nível de acabamento".
Wilhelm, chegando na América, trabalhou duro no ramo madeireiro e conseguiu subir na vida. Depois, entrou também no ramo da mineração. Uma de suas propriedades, descobriria para sua sorte, localizava-se sobre uma mina de Taconita e minério de ferro, que acabaria por fazer dele um homem rico. Wilhelm construiu uma mansão em Mesabi Range, Minnesota, tornou-se diretor do Peoples Savings Bank, presidente da Galvin Brass and Iron Works, e acionista da seguradora Standard Life. Adquiriu terras também no estado de Washington, mais precisamente em Ocean Shores, e enormes áreas de floresta na California. Wilhelm morreu cedo, em 1890, com apenas 42 anos. Deixou à sua viúva Marie e aos filhos Gretchen, Caroline e William, uma herança de mais de um milhão de dólares, enorme quantia à época.
Marie casou-se novamente. Logo ficou evidente que o seu novo esposo e o jovem William não se toleravam. A solução foi mandar o jovem William para um colégio interno em Vevey, Suíça. Estes foram os anos da formação da personalidade de Boeing. Muito de seu rigor, de sua perosnalidade introvertida, tímida até deve-se aos rigores de sua educação e da distância de sua família. Entre 1899 e 1902, Boeing voltou aos Estados Unidos, onde estudou na Sheffield Scientific School em Yale. Apesar do pedigree da escola, Boeing não completou o curso. Em 1903, com apenas 22 anos, deixou o colégio e radicou-se em Grays Harbor, Washington, onde expandiu rapidamente a madeireira que havia herdado de seu pai.
Boeing mudou-se para Seattle in 1908 e fundou a madeireira Greenwood Co. Nessa fase, Boeing já tonha absoluto fascínio por aeroplanos. Em 1914, conheceu G. Conrad Westervelt, tenente da marinha norte-americana. Boeing e Westervelt tornaram-se amigos e, nessa época, voaram pela primeira vez em um biplano rudimentar. Ambos perceberam que poderiam construir uma aeronave melhor do que aquela e, com os contatos de Westervelt, quem sabe vendê-los à U.S. Navy.
Nasce o maior fabricante de aeronaves do mundo
Em 1915, Westervelt começou a pesquisar, com o auxílio de Jerome Hunsaker, do Massachusetts Institute of Technology (MIT), possibilidades aerodinâmicas em um túnel de vento. Boeing tratou de matricular-se na escola de Glenn L. Martin, em Los Angeles, para aprender mais sobre engenharia aeronáutica. E foi então que Boeing adquiriu seu primeiro avião, um Martin modelo TA. Convencido de que havia um brilhante futuro na aviação, Boeing contratou 15 pessoas e começou a projetar e construir seu primeiro avião.
Em 15 de junho de 1916, ele ficou pronto: nascia o B&W (Boeing e Westervelt) Model 1. Tinha menos de 8 metros de comprimento e voou por apenas 300 metros em seu primeiro e desajeitado voo.
Tempos de Guerra
Em 15 de julho de 1916, Boeing adquiriu outra companhia, a Pacific Aero Products e consolidou seu crescimento. Em 8 de abril de 1917, o presidente Woodrow Wilson declarou guerra à Alemanha. Os Etados Unidos precisariam de aeronaves para entrar no conflito. Em 17 de maio de 1917, a Pacific Aero Products teve seu nome alterado para Boeing Airplane Company. William Boeing alistou-se como reservista na U.S. Navy e, com a decisiva ajuda de Westervelt, a empresa assinou um contrato para construir 50 aeronaves de treinamento básico. As aeronaves eram chamadas Boeing Model C.
Em 11 de novembro de 1918, a Primeira Grande Guerra chegou ao fim. Para manter sua fábrica aberta, Boeing diversificou os produtos construídos, passando a fabricar produtos em madeira. Mas sua crença na avição permanecia inabalável. Boeing então usou sua própria aeronave particular, o Boeing C-700 (versão civil do Model C) e entregou 60 cartas por via aérea entre Vancouver e Seattle, em uma viagem que entraria para a história como a primeira a trazer correio aéreo do estrangeiro para os Estados Unidos.
Em 1921, Boeing casou-se com Bertha Paschall, que já tinha dois filhos de um casamento anterior e que lhe daria seu único filho natural, William Boeing, Jr.
De volta às pranchetas, seu tino e obstinação foram fundamentais ao desenhar o Model 40A, um biplano construído especificamente para transportar correio. A aeronave venceu uma concorrência para a rota de Chicago a San Francisco e nada menos que 26 aeronaves foram construídas e entregues até 1927. Esse foi o primeiro modelo de grande sucesso da companhia. No ano seguinte, a Boeing já era uma das maiores fabricantes de aeronaves dos Estados Unidos, com mais de 1.000 colaboradores.
Boeing enxergava longe. Ambicioso, fundou uma companhia de transporte aéreo, a Boeing Airplane and Transport Corporation, rebatizada de United Aircraft and Transport Corp. em 1º de fevereiro de 1929. O grupo incluía empresas de manutenção, escolas de aviação, enfim, havia empresas em diferentes especializações no ramo de aviação, todas comandadas pessoalmente por Boeing.
Mas foi nesse fatídico ano que aconteceu o pavoroso Crash da Bolsa, jogando o mundo numa implacável recessão. Uma série de dificuldades fez com que suas empresas perdessem parte do ímpeto. Ainda assim, Boeing permaneceu à frente de suas companhias.
Em 1934, deu-se uma grande reviravolta: o governo federal declarou uma lei antitruste, obrigando Boeing a abrir mão de algumas de suas empresas, consideradas monopiolistas. Desencantado, Boeing viu a sua United Aircraft and Transport Corp. ser desmembrada. Boeing abdicou do posto de chairman e vendeu suas ações. Ainda assim, em 20 de junho de 1934, recebeu o prêmio Daniel Guggenheim por suas notáveis realizações no meio aeronáutico. Durante a cerimônia de premiação em San Francisco, Boeing declarou: "Agora que me aposento do serviço ativo na aviação, receber o prêmio Daniel Guggenheim é o verdadeiro climax de minha vida. Permanecerei daqui em diante ao largo dos acontecimentos mas, de toda maneira, serei um observador atento e apaixonado pelo setor".
Um homem e seu legado
Boeing continuou no ramo madeireiro e em 1937, começou a criar cavalos e gado em Walnut Creek, California. Em seus deslocamentos, Boeing voava com regularidade em uma aeronave Douglas Dolphin anfíbia, que estava sempre ao lado de seu famoso e amado iate, o Taconite, batizado em homenagem ao mineral que dera à sua família a fortuna e o prestígio que o jovem Boeing só fez aumentar.
Durante a Segunda Guerra, Boeing voltou como consultor à fábrica que levava seu nome. E, em 15 de maio de 1954, teve a alegria de assitir a cerimônia de batismo do "jato do futuro", o primeiro Boeing 367-80, o famosíssimo "Dash 80", que viria a ser o protótipo do modelo 707. Bertha Boeing derramou champagne no nariz da aeronave que levava o nome de família de seu esposo.
Em seus últimos anos de vida, Boeing manteve-se ocupado em suas propriedades, verificando pessoalmente seus rebanhos, suas florestas, seus cavalos. Morreu pacificamente em 28 de setembro de 1956, a bordo do seu iate. Tinha 75 anos de idade. Suas cinzas foram atiradas ao largo do litoral do Canadá, na região de British Columbia, tantas vezes por ele visitada a bordo do seu amado Taconite.
William E. Boeing tinha paixão pela precisão. Na parede de seu escritório, uma placa dizia o seguinte:
"1. Não há maior autoridade do que aquela contida em um fato. 2. Fatos são obtidos através de meticulosa observação. 3. Deduções podem ser originadas apenas através de fatos. 4. A experiência mostra a veracidade destas regras."
Um perfeito epitáfio para o visionário, detalhista, ambicioso, implacável e vencedor William Edward Boeing.
© Gianfranco Beting
21/12/2008
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