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Editorial
Memórias de Miami



O aeroporto de Miami sempre exerceu um fascínio especial para mim. Dos meus tempos de guri, quando já era (e ainda continuo) apaixonado pela PanAm, ficou a impressão de que a maior cidade da Flórida era mesmo a porta de entrada dos Estados Unidos, desbancando até a mais conhecida Nova York. Estas duas metrópoles da costa Leste dos USA eram mesmo, de fato, os dois maiores pólos de tráfego da finada "PA". Miami fora a sua base de hidroaviões, de onde realmente partiam os voos que davam a ela a razão primordial para a origem de seu nome: Pan American. Já Nova York era a sua sede, em seus anos mais gloriosos, e grande base de operações da Divisão do Atlântico. De lá partiam e chegavam os fabulosos Boeing 377, Constellation, Boeing 707 e 747 que a empresa empregou para dominar, sem qualquer outra concorrente que lhe ousasse fazer sombra, o então mais lucrativo mercado da aviação intercontinental: o Atlântico Norte.

Mas o texto aqui é sobre Miami, não sobre a PanAm - é sempre assim, difícil não se empolgar sobre a inesquecível "PA". Portanto, voltemos à razão que me leva a escrever estas mal traçadas. Estamos aqui para fazer loas à algo que o Miami International Airport (ICAO: KMIA; IATA: MIA) pode realmente se orgulhar: de ser um dos mais interessantes aeroportos do mundo.

Isto se deve, sobretudo, à sua privilegiada posição geográfica. Debruçado sobre o Caribe, o Atlântico e o Golfo do México, a geografia fez de Miami um trampolim ideal para empresas e aeronaves que chegavam ou partiam para a America Latina, Europa e Caribe. Isto fez com que suas pistas se tornassem uma das mais concorridas, disputadas e visitadas das três Américas. Toda companhia Latino-Americana que se prezasse solicitava (e ainda solicita) rotas e voos para a cidade. Como conseqüência, um caleidoscópio de aeronaves, empresas, pilotos, uniformes, pinturas, cores e sabores desta fascinante região do mundo podiam ser vistas a cada dia neste notável aeroporto.

Mas não é só: Miami também foi sede de grandes nomes da aviação comercial. A mais famosa de todas, a Eastern Airlines. E também a National Airlines e Air Florida, todas um dia tiveram Miami por base principal. Isto sem falar nas cargueiras: Fine Air, Arrow Air, Centurion, Florida West... a lista é longa. Além de toda esta história, existe por trás do fascínio que Miami exerce em mim mais um fator que me faz sonhar com o aeroporto da cidade: minha própria a história pessoal com KMIA.

Minhas memórias pessoais começam em grande estilo. Pousei pela primeira vez por lá em janeiro de 1982. Estava a bordo de um L1011-500 da PanAm, procedente sem escalas de San Francisco. Lembro perfeitamente da aproximação, com o Tristar bailando para evitar as enormes torres de Cumulus Nimbus que se formavam naquele começo de tarde. Pousamos e o calor úmido da cidade me pegou em cheio, um notável contraste com o frio e o fog da "City By The Bay" que havíamos deixado nas primeiras horas daquela manhã. Enquanto o Tristar taxiava rumo ao Píer F, onde finalmente iria estacionar, meus olhos vidrados admiravam a "fauna" dominando o pátio. Lembro do escarlate da fuselagem de um Boeing 707 da Avianca; o amarelo ouro e o vermelho de um DC-8 da Surinam Airways; e o inconfundível Boeing 707 da Ecuatoriana, em sua pintura dourada com as cores do arco-íris estampadas na fuselagem. E a profusão de tipos e cores de empresas as quais eu só conhecia por livros e imagens: Eastern, Delta, Republic, Piedmont, TWA, etc... Aquilo era uma festa para os olhos de um jovem que sempre sonhara em conhecer os Estados Unidos, sonho realizado naquela mesma viagem. No dia seguinte, fui visitar os escritórios da Transbrasil Inc., a subsidiária norte-americana da finada Transbrasil. Da porta do escritório, que dava acesso para o pátio na rampa de carga, um assombroso contato imediato de primeiro grau com um DC-10-30 da Air Florida, recebido para inaugurar a linha para Londres Gatwick. Na pista 36, uma cena para não esquecer: um CL-44 cargueiro da AECA, uma empresa equatoriana de carga, jazia atravessado, trens de pouso em colapso, barriga sendo coberta de espuma pelos bombeiros, logo após um pouso desastrado. Era emoção demais apara um guri que tinha por referência máxima de diversão um punhado de idas pra lá de esporádicas para Viracopos, então visitado por algumas empresas internacionais de passageiros.

No dia seguinte, deixei Miami com destino a Nova York - Kennedy (JFK), a bordo de um 747-100 da PanAm, que à época usava seus jumbos em trechos domésticos. Bota "bons tempos" nisso! Ao chegar à Big Apple, o estrago já estava feito: prometi que voltaria lá com a minha câmera melhorzinha (uma Canon AV-1 que havia comprado nesta mesma viagem) e que fotografaria toda aquela variedade. E é preciso lembrar que aqueles eram outros os tempos. Os terminais de Miami tinham grandes janelas e seu acesso era facultado também àqueles que não iriam viajar. Havia um terraço enorme no ponto mais alto do edifício principal do terminal, que comandava vistas excepcionais de todo o aeroporto. O tráfego era de uma variedade descomunal, talvez nunca antes e, certamente, jamais igualado.

Na reta de aproximação, era comum, nas horas de pico, contar 4 ou até cinco aeronaves em sequência para pouso. Não raro, três tipos de propulsão eram vistos em sucessão: um DC-7 ou DC-6 cargueiro de alguma obscura transportadora da República Dominicana, seguido por um Tristar da Eastern; atrás, vinha roncando um provecto Convair com turboélices Allison, seguido por um fumarento BAC 1-11 ou DC-9 de algum país caribenho; minutos depois, era a vez de um majestoso jumbo 747-SP da PanAm tocar o solo, enquanto o Concorde da British Airways abaixava os trens de pouso, já no marcador externo. Sim, o Concorde chegou a voar regularmente para Miami. A seguir, um Boeing 377 de carga e um DC-10 da Transamérica completavam o desfile. Que outro aeroporto do mundo, antes ou depois, tinha esta verdadeira salada mista de tráfego em bases quotidianas? E olha só: estou falando dos anos 80. Não faz tanto tempo assim. Ou será que faz?

Lembro que foi no começo dos anos 90 que esta excepcional variedade começou a diminuir. Com a recessão de 1991/1992, muitas empresas norte-americanas entraram em processos de fusão, incorporação ou simplesmente faliram. Vários dos tipos mais antigos, como os quadrimotores a pistão, foram ficando cada vez mais raros. As companhias aéreas latino-americanas, sobretudo aquelas da América Central, foram indo, uma atrás da outra, para o cemitério "de Santa Maria de Las Aerolíneas Latinas Muertas." Aviateca, Air Panamá, SAHSA, Aerocondor, LANSA, Faucett, Aeroperú... Todas foram fechando, falindo por seus próprios pecadillos ou, simplesmente, por não agüentar o tranco da competição direta contra a American Airlines, que dominaria a região e dela não mais abriu mão.

Lembro, como se fosse hoje, do último Constellation que vi operando em um voo comercial. Era um cargueiro que acompanhei, absolutamente fascinado, decolar em 1991. Pertencia à empresa dominicana Aerochago. Lentamente, solenemente, ganhava altura sobre um ensolarado e quente dia de verão sobre Miami, seu maravilhoso som produzido pela quadra de Wright Cyclones enchendo o céu (e minha alma) com sua inimitável música. No minuto seguinte, outro quadrimotor cargueiro (desta vez, um 747!) seguiu na sequência de decolagem, partindo para mais uma travessia oceânica. Dois aviões que foram, a seu tempo, a epítome da tecnologia e avanço aeronáutico, decolando um após o outro. Só podia ser Miami.

Se arrependimento matasse, eu já estaria fulminado. Durante 1990 e 1991, ia todos os meses a Miami. Os escritórios da Transbrasil, onde trabalhava na época como vice-presidente de publicidade, ficavam em um conjunto de escritórios ao lado da pista. Desde as instalações, era possível ver os aviões em aproximação. Lembro de acompanhar, deslumbrado, a procissão de L-1011 e A300 da Eastern Airlines e da própria PanAm. E sempre dizia comigo mesmo: puxa, preciso fotografar estes aviões. Quem diria que estas duas grandes, tradicionais, carismáticas empresas aéreas estariam falidas antes de 1991 acabar? Pois foi isto mesmo que aconteceu. E eu não fotografei praticamente nada!

Por falar em falência, lembro da minha emoção ao chegar a Miami e ver um mar de aviões da PanAm amontoados na área técnica da empresa, no dia seguinte à sua bancarrota. Uma cena surreal: aquele mar de jatos estacionados, ou quase amontoados, todos pintados de azul e branco, nas cores daquela que por décadas foi maior, mais poderosa e mais influente companhia aérea do mundo. Pois agora ela estava reduzida a uma memória, a uma coleção de imagens captadas pela retina e guardadas na alma? Esta cena foi e ainda é uma memória muito forte.

Lembro também com indisfarçável nostalgia, do acesso aos hangares construídos ao longo da rua 36. Era possível estacionar ao lado das aeronaves e ficar observando dezenas de oficinas, centros de manutenção e pátios abarrotados por centenas de aviões de todos os tipos, operadores, companhias - vivas e mortas. Nesta parte do aeroporto, conhecida como "Corrosion Corner," eu aprendi muita coisa sobre aviação. A maior lição? Como é difícil este diabo deste setor. Era para lá que iam os aviões de todas as empresas que faliram, fecharam ou foram compradas. Lá ficavam os aviões abandonados, confiscados, modificados ou em manutenção, uma Babel aérea onde companhias vivas e mortas dividiam as mesmas rampas. Meu programa favorito, após o jantar, era pegar o carro e estacionar nas cercas ao lado destes "hulks". Passava as horas seguintes, na luz pálida e amarelada dos holofotes dos pátios, olhando para aquilo, inalando aquele cheiro único. Cheiro de avião, a mistura de óleo, graxa, AVGAS, querosene e "Skydrol" (fluido hidráulico) que vazava dos motores e sistemas como que para perfumar minhas narinas.

Mas não se vive de passado. Sendo assim, para aqueles que imaginam que Miami está morto, basta visitá-lo hoje em dia. Claro, você não verá nenhum Stratocruiser ou Constellation na aproximação final. Um punhado de Convair 580, alguns 340, você ainda vê. E como prova que nada supera o fascínio da aviação, vai encontrar também um voo diário operado com o Airbus A380. É o Lufthansa 462/463, que diariamente chega e depois retorna sem escalas para Frankfurt. Prova cabal de que a aviação continua pulsando, se renovando e encantando no Miami International Airport.

Gianfranco Beting © Jetsite 2011

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