Assumam as posições de impacto
Nesta última semana, duas aeronaves comerciais e outra militar foram perdidas em menos de 24 horas: no dia 27/07, um MD-11F da Lufthansa Cargo acidentou-se ao pousar em Riad, felizmente sem vítimar seus dois tripulantes; no dia seguinte, a sorte não estava ao lado dos infelizes ocupantes do voo 202 da paquistanesa Airblue: 152 mortos quando o A321 colidiu contra montanhas ao se aproximar de Islamabad. Nesta mesma data, um C-17 da U.S. Air Force caiu próximo à Elmendorf AFB, em Anchorage, Alaska, matando seus quatro ocupantes.
Com três acidentes graves em dois dias, a opinião pública questiona se a "bruxa" não estaria à solta. Embora seja esta a visão do público, ela não corresponde à verdade. Ainda assim, a situação atual da segurança no transporte aéreo não deixa de ser preocupante. O fato é que a aviação, em todo o mundo, atravessa um prolongado período no qual o patamar de segurança encontra-se simplesmente estagnado. Nos últimos anos, o exercício de 2003 foi o que menos teve acidentes fatais: 27, matando 684 pessoas. Em 2004, 28 acidentes com 431 mortos, o "melhor" número nos últimos anos. O pior foi 2002, com 37 acidentes e 1.101 vítimas fatais.
O que impressiona a opinião pública é constatar que, na média, acontecem dois acidentes fatais a cada mês. Esta média tem sido a regra nos últimos anos. Não menos perturbador está o fato de que uma grande parcela destes acidentes ocorreu por culpa de um velho vilão do setor: o voo controlado contra o terreno, ou Controlled Flight Into Terrain - CFIT. Dentre os grandes "assassinos," talvez os acidentes provocados por CFITs sejam os mais dolorosos, por incompreensíveis. Afinal, é difícil admitir que aviões perfeitamente mantidos, sem panes ou problemas de ordem técnica alguma, pilotados no mais das vezes por aeronautas experientes, acabem colidindo contra o solo por falhas operacionais, ou, como prefere a mídia não especializada, "falhas humanas" protagonizadas por seus pilotos e/ou controladores em solo. Em abril último, um CFIT ganhou manchetes no mundo inteiro, quando o Tupolev 154 presidencial da Força Aérea Polonesa colidiu contra árvores, virou de dorso e explodiu invertido contra uma floresta quando se aproximava sob denso nevoeiro do aeroporto de Smolensk, Rússia. Naquele instante, mais um acidente CFIT ceifou, em segundos, 96 membros da alta classe política polonesa.
Como, pergunta-se, como em pleno Século 21, uma causa tão prosaica como esta - colidir contra o solo em voo aparentemente controlado - pode continuar fazendo tantas vítimas? Não há respostas prontas, embora fossem fáceis, ainda que a um custo elevado, aplicar as soluções técnicas já existentes para impedir os acidentes CFIT. Já há tecnologia disponível para praticamente eliminá-los da lista de grandes vilões do setor. O problema é a vontade política das órgãos reguladores e dos próprios operadores, civis ou militares, para incorrer nos bilhões (sim, bilhões de dólares) necessários para reequipar as aeronaves e sistemas de controle de tráfego hoje em operação.
Tão desconcertante quanto os acidentes ocasionados por CFITs, outro velho assassino anda à solta: a desorientação espacial de pilotos, que continua derrubando aviões e interrompendo vidas. O caso dos 737-800 da Kenya Airways em Douala (2007) e, mais recentemente, da Ethiopian em Beirute, em janeiro último, são clássicos exemplos desse fenômeno, mais comum em voos noturnos e sobre o oceano.
De forma geral, quando o tema é aumentar significativamente a segurança na aviação, a resposta infelizmente é uma só: ainda que este seja o meio de transporte mais seguro que se conhece, nenhuma iniciativa ou tecnologia revolucionária foi anunciada ou incorporada em massa para evitar que acidentes continuem acontecendo no ritmo que estão, desde o início dos anos 90. Com o reaquecimento da economia global e consequente retomada de tráfego aéreo, estatisticamente acabarão ocorrendo pelo menos dois acidentes fatais ao mês, em todas as partes do mundo - Brasil inclusive. Dentro de dez anos, este número, se nada for feito, chegará ao patamar de uma cidente fatal por semana.
Aqui pelo Brasil, a coisa vai de mal a pior, até porque nosso País encontra-se especialmente sensível ao tema. As imagens dos destroços do Boeing espalhados pela floresta em 2006, do A320 ardendo em meio à cidade de São Paulo em 2007, e mais recentemente, a cauda do A330 encontrada perdida sobre o Atlântico após decolar do Rio de Janeiro, estão marcadas no imaginário coletivo de milhões de brasileiros que se valem da segurança do transporte aéreo.
Com a retomada da economia nacional e consequente aumento do número de aeronaves, horas voadas e cidades servidas - sem a necessária contrapartida em investimentos em infraeestrutura - então temos aqui em nossa Pátria Mãe Gentil a receita certa para um desastre.
Que ninguém se iluda: em absolutamente nada avançamos em termos de segurança aérea no Brasil nos últimos anos. Muito se falou após os "apagões aéreos". De prático, concreto, ou significativo, praticamente nada se fez: salários e melhor treinamento para controladores; novos radares e auxílios de navegação; pistas prolongadas, com áreas de escape; novoas pistas, aeroportos e terminais, mais modernos e seguros; plano de carreira e incentivo à formação de novos talentos; adoção de "best practices" mundiais no controle de fluxo de tráfego em solo e em voo; instalação de ILS mais modernos em aeroportos contaminados por nevoeiros; incremento de fiscalização em empresas e operadores - tudo isso ficou como praticamente tudo fica nesta Terra de Vera Cruz: na conversa. Se a bruxa está a solta, nossos líderes políticos estão paralisados.
Conduzidos por uma classe política de terceira classe, tisnada pela incompetência técnica, vendida pelo apadrinhamento político ou imobilizada por dogmas ideológicos de 100 anos atrás, o panorama é simplesmente aterrorizante. Como ser otimista se o "doutor" ignora as queixas do doente, ou, mais frequentemente, zomba delas? Outro dia, um líder do congresso afirmou para quem quisesse ouvir que a aviação comercial brasileira é "tão segura ou até mais que a norte-americana e nossos aeroportos muito mais modernos e confortáveis que os 'deles' ". Captou?
Pobre da nação que não enxerga a necessidade investir, com recursos materais e humanos, no setor aéreo. Está condenada ao isolamento, ao atraso, ao subdesenvolvimento. E quando tudo isto acontece justamente com o ponto mais nevrálgico do setor - a segurança - então a hora é mesmo de acender velas. Por todos nós e pelos mortos que, em breve, teremos que enterrar.
Gianfranco Beting
31/07/2010
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