O lugar: Oeste do Atlântico Sul. O ano é 1945. Recém terminada a Segunda Grande Guerra, os "Redo", principal grupo étnico do país Vermelho gozam de sua elevada posição social, tanto civil quanto militar. O resultado disso, como ocorre ao redor do mundo, é a opressão dos grupos étnicos menores, concentrados na parte Leste do país. Vermelhos e os habitantes do país vizinho, Azul, lutaram em lados opostos durante o conflito mundial. Os azuis estavam juntos das forças vencedoras, e apoiaram uma resolução internacional, no ano seguinte, que dividiu o país Vermelho em dois: a parte Ocidental, que manteve-se como país Vermelho, e a parte Oriental, composta por minorias étnicas, batizado de país Amarelo. A resolução causou ira dos Redo, que incitaram a população para que se opusessem à separação - os anos de conflitos, antes apenas políticos e econômicos, acabaram explodindo em uma onda de ódio que culminou na ocupação militar de parte do país Amarelo pelas forças vermelhas, sob o pretexto de "proteger a população vermelha". Coincidentemente, a região fronteiriça anexada é rica em poços de petróleo.
A decisão da ONU foi unânime, exigindo a retirada imediata das forças vermelhas do território vizinho e a formação de uma Força de Paz para a pacificação da região. A escolha natural para a liderança da força de paz foi o país Azul. A recepção dos vermelhos não haveria de ser diferente: a guerra estava declarada.
Apesar de soar muito real, todo esse cenário foi o pano de fundo do maior exercício de combate aéreo feito pela FAB, o CRUZEX V (Cruzeiro do Sul Exercise), durante os dias 28 de outubro e 19 de novembro de 2010, nos estados do Rio Grande do Norte, Ceará e Pernambuco. Com presença de aeronaves do Brasil, França, Estados Unidos, Chile e Uruguai, o CRUZEX V teve o objetivo principal de treinar as Forças Aéreas envolvidas no planejamento de operações combinadas com países aliados, em molde semelhante ao feito pela OTAN. No total, participaram do exercício 2.500 militares brasileiros e estrangeiros, incluindo observadores da Bolívia, Equador, Canadá, Reino Unido, Colômbia, Paraguai e Argentina. O último deveria participar do exercício com suas aeronaves A-4, mas acabou cancelando sua participação aérea pouco antes do início dos exercícios.
Quase cem aeronaves envolveram-se no exercício: do Chile, vieram cinco caças F-16C/D Block 50+/52+, acompanhados por um KC-135E, um contingente semelhante ao dos Estados Unidos, composto por seis F-16C do 120th Fighter Squadron, apoiados por um KC-135R da Guarda Aérea Nacional do Arizona. As barulhentas e impressionantes decolagens desses caças causaram bastante impacto aos que não estão acostumados com a aeronave. Já a França trouxe quatro Mirage 2000/5 e quatro caças Rafale B, sem dúvida as vedetes do treinamento - inclusive, segundo nosso colaborador Ricardo Hebmuller, que cordialmente nos cedeu as fotos do exercício, o consenso entre as "velhas águias" foi de que o avião é tão feio que chegar até a ser bonito. Apresentando um controle delicado, os Rafale pousavam suavemente na pista de Natal e sem dúvida atraíram muitos olhares dos oficiais da FAB: afinal, esse avião pode muito bem apresentar as cores brasileiras nos próximos anos. O Uruguai veio ao treinamento com um contingente interessante, formado por três Cessna A-37 Dragonfly e outros três AI-58 Pucará . O Brasil participou em peso, com 6 caças F-5M, seis Mirage 2000, nove A-1 AMX e outros nove A-29 Super Tucano, além de seis helicópteros, dois C-130, três Bandeirante, dois C-105, um KC-137, além de quatro E-99, para as missões de AEW&C.
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Os desafios foram muitos e a primeira barreira foi a barreira da língua - para se entenderem, a língua oficial é o inglês, e toda a fraseologia aeronáutica nesse idioma. Mas, com tantos "hermanos" sulamericanos, o "portunhol" foi usado mais de uma vez, como afirmou em entrevista à FAB o Tenente-Coronel Renato Guido, piloto de A-37 Drangonfly da Força Aérea do Uruguai e já veterano no exercício: "Quando há algum problema em inglês, nós nos comunicamos em portunhol". Já o Major-Brigadeiro-do-Ar da FAB, Antonio Carlos Moretti Bermudez, em entrevista à FAB, confirmou o grande desafio que é coordenar o trabalho de nações diferentes: "Operar com outras nações, de diferentes realidades históricas, sócio-culturais, econômicas e doutrinárias é realmente um grande desafio, especialmente pela comunicação".
Se no ar os combates simulados foram intensos, no solo o trabalho foi ainda maior: os comandantes dos esquadrões e seus superiores foram responsáveis por planejar e executar cada missão, considerando capacidades e limitações impostas de maneira dinâmica pelo cenário de guerra, semelhante à um conflito real. O cérebro do treinamento estava em uma grande sala de controle, equipada com simuladores de conflito de ponta, onde foi montado o CAOC - Combined Air Operations Center, ou Centro de Operações Aéreas Combinadas, parte do chamado JFAC - Joint Force Air Component, ou seja, o componente aéreo formado pelas várias nações envolvidas no treinamento. Esse foi um dos pontos vitais do exercício: o de mesclar melhores práticas, técnicas e procedimentos das várias nações envolvidas, em um ambiente com inúmeros fatores envolvidos, com a meta de obter os melhores resultados, com o menor risco e a maios segurança de voo possível. Toda essa informação de inteligência foi conectada por 600 estações de trabalho, em uma rede interna capaz de transferir até 1 gigabyte de dados por segundo, além de rádios, sisetma de telefonia e criptografia. Os mecânicos e demais pessoal de solo também tiveram que suar a camisa sob o belo sol do Nordeste: as missões no CRUZEX são formadas de "pacotes", geralmente com dois "pacotes" por dia, uma de manhã e outro de tarde, onde aproximadamente 40 aeronaves partem simultaneamente para completar suas missões - cada grupo de aeronave dentro de sua especialidade, apoiando um grupo ao outro, como forma de atingir um objetivo comum. Antes e depois de cada um desses "pacotes", o pessoal de solo corria para manter as aeronaves operacionais e em condições de operar em segurança. Uma corrida contra o tempo, em busca da excelência.
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O exercício também foi visto como uma demonstração de força e capacidade de organização das forças armadas brasileiras. Em entrevista ao diário mensal da FAB, um dos idealizadores do Cruzex e comandante do Comando-Geral de Operações Aéreas (COMGAR), o Tenente-Brigadeiro-do-Ar Gilberto Antonio Saboya Burnier afirmou que "(...) o Brasil tinha que demonstrar com suas Forças Armadas (...) que era capaz de realizar um exercício compatível com o que ele representa."
Depois de mais de 20 dias de "hostilidades", quase 950 decolares e aproximadamente 1.200 horas de voo, em missões de intercepção, tanto visual quanto BVR, ataque, transporte, comando e controle e SAR, a equipe da coalizão teve sucesso em expulsar as tropas do país Vermelho do território amarelo, mantendo superioridade sobre o espaço aéreo inimigo. Venceram não só as "forças da coalizão", mas a amizade entre os países participantes, que trocaram informações e puderam aprender cada vez mais, em um cenário de cooperação mútua entre diferentes forças armadas. O slogan da própria CRUZEX V não deixa dúvida do sucesso da cooperação: A guerra é simulada, o treinamento é real.
Parabéns para a FAB e todos os participantes por conseguirem concretizar um exercício tão estruturado e dentro de um contexto tão pertinente. A armada aérea brasileira só tem a ganhar com interações desse tipo.
Vitor Freesz
Gostaríamos de agradecer ao nosso amigo Ricardo Hebmüller pelas excelentes fotos!
Parabéns ao CECOMSAER, que fez um trabalho excepcional na divulgação do CRUZEX V. Além de uma total preocupação e atenção completa aos jornalistas e fotógrafos, inclusive reservando um "media day", com fotos ar-ar, a área de comunicação da FAB atuou fortemente através das novas mídias da internet, como o Facebook, Flickr e Twitter. Um trabalho de divulgação simplesmente excelente, apresentado nas fotos acima, que ajuda - e muito - a colocar a FAB em contato direto com o público do século XXI. Parabéns - Senta a Pua!
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