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Aero Marketing
Embarque em nosso Voo de Foto



O leitor do Jetsite já sabe muito bem: minha maior paixão na vida é fotografar aviões. Concilio a forma de expressão visual que mais admiro juntamente com minha paixão pela aviação. Talvez toda a minha paixão pelos aviões tenha origem em um fato inegável: a plasticidade de uma aeronave. Qualquer aeronave. Acho até o Antonov An-2 bonito, à sua maneira.

Este intróito serve para dizer que, quando tenho uma câmera na mão e um avião na minha frente, sei o que é ser feliz. E, quando este avião está em pleno voo, em seu elemento natural, a sensação é inebriante, sublime.

Some-se a isso o fato de que, naquele bendito dia 6 de dezembro de 2008, não teria à minha frente uma aeronave qualquer. Aliás: uma não, duas! Um Embraer 190 e um Embraer 195 da Azul Linhas Aéreas Brasileiras, empresa na qual trabalho e pela qual trabalho há quase um ano.

Por falar nisso, uma das primeiras coisas em que pensei, lá nos idos de março de 2008, logo que assumi a tarefa de desenhar a identidade corporativa da companhia, uma das primeiras coisas que me veio à mente foi: "imagine só quando os primeiros aviões nas cores da companhia fizerem seus voos de foto", que é uma das maneiras de se referir aos voos especialmente operados com o intuito de fotografar as aeronaves. Disse para mim mesmo: "Quem vai fotografar nossos aviões vai ser o papai aqui". Desde esse dia, sonhava em ver os Embraer da Azul, em pleno voo, diante das minhas lentes.

Já havia feito vários voos assim. Por sinal, durante um breve período, em 2002, fui contratado pela própria Embraer para fazer os voos de fotos para a companhia. Dentre os principais trabalhos, participei justamente do programa de certificação dos E-Jets. Antes e depois disso, também havia sido chamado para fazer voos de fotos para a Trip e para a Gol, para quem fotografei, em janeiro de 2001, dois Boeing 737-700 sobre Brasília e o primeiro 737-800SFP em seu voo de certificação no Santos Dumont, em meados de 2006.

Quando chegou a vez de fotohgrafar as aeronaves da Azul, combinei com o pessoal da Embraer que eu seria o fotógrafo. Mas havia uma particularidade: o primeiro Embraer 195 entregue pela fábrica (PR-AYA) à Azul, havia sido precedido por dois Embraer 190, usados, que a companhia havia arrendado da JetBlue para acelerar o programa de certificação. Quando o AYA fosse entregue, na verdade, seria o terceiro E-Jet voando com as cores da companhia. Daí me veio o estalo: "que tal um voo em formação, com um E190 e um E195?" Corri para a sala ao lado e apresentei a idéia ao próprio David Neeleman, que me ouviu com expressão divertida e de imediato topou.

"Boa idéia, vá em frente. Mas não deixe de fotografar ao menos um sobre o Rio de Janeiro" - foi sua resposta. Aceitei a recomendação na hora, afinal, ordens do chefe não se discutem.

Telefonei para a Embraer e lancei a idéia. A resposta foi: "Voo em formação? Duas aeronaves? É muito arriscado!" Bati o pé, firme. Disse a eles que fazia questão e que assumiria todos os riscos. Depois de algumas idas e vindas, a Embraer topou, mas com uma condição: que ambos os jatos fossem comandados pelos pilotos de provas da própria companhia, acostumados a voar em formação. E aqui vai uma explicação. Voar em formação exige conhecimento, experiência, entrosamento entre os tripulantes das aeronaves envolvidas. Conhecer as reações das aeronaves, seu desempenho, seus comportamentos quando em voo de formação, é fundamental para a segurança da missão e para o êxito na captação de imagens. Quando duas aeronaves voam próximas, uma interfere no comportamento da outra. Além disso, é preciso ter 101% de concentração, sobretudo em situações imprevistas, como rajadas de vento, perda de visibilidade, teto baixo, voo em curva, etc.

Quando soube quem iria comandar as aeronave, fiquei ainda mais tranquilo. Iria voar com a nata dos pilotos de testes da companhia, ninguém menos que os comandantes Pirk e Gérson, ambos pilotos de provas da Embraer. E como se isso fosse pouco, no avião-paquera estaria o não menos capaz e talentoso comandante Carlos Edo, líder da esquadrilha Oi, extremamente experiente e acostumado a voar em formação com jatos da Embraer. Com um time de craques assim aos comandos, sabia de antemão que não teria muito trabalho. As mãos talentosas desses três ases fariam do meu trabalho algo muito fácil: bastaria apertar o botão do obturador.

Na verdade, a preparação deste voo de foto havia começado muito tempo antes. Nas semanas anteriores, Fábio Barros, do setor de operações da Azul, havia se reunido com autoridades do DECEA e CGNA, no sentido de coordenar todas as informações e instruções necessárias para a realização do sobrevoo no Rio de Janeiro de maneira a não interferir como tráfego aéreo local. Instruções e autorizações concedidas, tínhamos tudo pronto para realizar nossa missão.

Depois de algumas idas e vindas a respeito da data do voo, acabamos fechando o fim de semana de 6 e 7 de dezembro para a nossa primeira tentativa. Os leitores que moram no sul e sudeste do Brasil sabem que, nesta temporada, São Pedro resolveu abrir para valer suas torneiras. Frentes frias, oclusas, nuvens convectivas, mini-cicloes, teve de tudo um pouco. Somadas, estas condições fizeram deste um dos mais chuvosos e instáveis verões dos últimos anos. Praticamente sem dias ensolarados, só nos restava torcer por uma colaboração do barbudo lá em cima, no sentido de limpar os céus para a nossa jornada fotográfica.

Parecia que eu havia esquecido que o nome da empresa é Azul. Três dias antes da foto, uma enorme massa de ar seco e frio dominou a região sudeste. Céus de um azul cristalino, ar seco e frio, garantiram condições climáticas perfeitas nos dias que antecederam o sábado, 6 de dezembro. Na véspera, um maravilhoso poente prenunciou um dia seguinte perfeito para fotografar. Fui dormir de olho na previsão, que indicava que a jornada de fotos prometia.

Pre-Flight Briefing

O despertador tocou as 04h00. Pulei da cama, lépido. As poucas horas de sono na véspera não pareciam pesar. Meia hora depois, com mais três colegas da Azul envolvidos na organização das fotos, lá estávamos nós, a caminho de Viracopos, de onde partiriam as três aeronaves.

Havíamos marcado o briefing pré-voo para as 06h00, com decolagem prevista para as 07h00. Chegamos pontualmente e fomos para a sala de despacho da Azul, onde encontramos os profissionais de operações da companhia, os pilotos da Embraer, dois observadores convidados e o grupo de quatro, além dos produtores da Embraer, da equipe que iria registrar o voo em video e a equipe comandada pelo próprio Carlos Edo.

O primeiro ponto discutido foi meu pedido sobre as necessidades de captação de imagens para a Azul. Precisaríamos dividir em duas etapas o voo: na primeira, o objetivo era fotografar as duas aeronaves juntas, sem dar grande importância à área que seria sobrevoada. Por sugestão dos pilotos da Embraer, concordamos em realizar as manobras justamente sobre a região de Gavião Peixoto, onde a fabricante possui seu centro de testes de voo. A região não concentra grande tráfego, sobretudo na altitude em que voaríamos (9 mil pés) e teríamos bastante liberdade para alterar proas, distâncias entre aeronaves, altitudes, sem interferir no tráfego aéreo.

A segunda parte do voo seria totalmente distinta: o objetivo era levar somente uma aeronave, nosso "Flagship", o Embraer 195 PR-AYA, para o sobrevoo da cidade do Rio de Janeiro e de seus muitos cartões postais. Atendendo ao pedido do próprio David Neeleman, o objetivo agora era fotografar o Embraer 195 "envelopado" pela maravilhosa paisagem da Cidade Maravilhosa.

Para a primeira parte, pedi aos pilotos que voassem muito próximos ao avião paquera. Minha intenção era empregar lentes do tipo grande-angular, que permitem maior profundidade de campo, além de dramatizar as linhas das aeronaves, objetivo que eu tinha desde que comecei a sonhar com este dia. Para a segunda parte do voo, mudaríamos de lentes e de distância entre o paquera e o PR-AYA: ele deveria voar sempre abaixo de nós e a uma distância maior, de maneira a permitir que a paisagem carioca fizesse parte da composição com suas linhas elegantes.

Os comandantes Pirk, que pilotaria o Embraer 195 PR-AYA, e o comandante Gérson, no manche do Embraer 190 PR-AZA, falaram então que em princípio, não haveria problemas. Voariam bem próximos ao avião-paquera, o que exigiria atenção e coordenação redobradas. O comandante Edo não fez qualquer objeção, acostumado que está com este tipo de operação. Combinamos uma frequência comum para comunicação via rádio, no sentido de trocarmos instruções entre as três aeronaves. Entre nós, ficou acertado que na fonia, o avião-paquera seria o "Azul Uno". O Embraer 195 seria o "Azul Dois" e o Embraer 190, o "Azul Três".

Finalmente, acertamos que voaríamos a aproximadamente 170 nós, velocidade limite de operação do Bandeirante EMB-110C com sua porta principal arrancada para permitir uma visão desimpedida dos fotógrafos. Uma única ressalva é que esta velocidade seria crítica para os dois jatos, que provavelmente teriam que dar algum flap (e com isso, abrindo os slats) de maneira a permitir o voo em formação com o Bandeirante. Tudo acertado, ficamos combinados: decolagem as 08h00. Antes de irmos para os aviões, o comandante Edo perguntou: "Vamos fotografar a decolagem?" Bidú, respondi. Foi mais um dos velhos e bons "plus a mais" que a jornada traria.

Showtime!

Tivemos tempo de sair do briefing, tomar uma água e café antes do voo. Minha emoção e a ansiedade eram indisfarcáveis, depois de meses sonhando com aquele dia, e semanas de preparação que envolveram dezenas de pessoas em várias cidades e em pelo menos quatro empresas ou órgãos governamentais. Ao mesmo tempo, me sentia realizado. Ver dois dos primeiros aviões da Azul voando juntos, seria a materialização de um sonho que vinha acalentando. A bordo do Bandeirante, iríamos eu, Florinda, minha assistente (e fotógrafa oficial do staff da Azul), dois da equipe de filmagem, mais o Comandante Edo, seu co-piloto, e um produtor, sete pessoas no total. No Embraer 195, iriam o comandante Pirk, seu co-piloto e Renato Covelo, diretor jurídico da Azul e fanático por aviação. Aliás, sem sua direta e decisiva participação, costurando o contrato especial para realização da missão, certamente não teríamos voado em formação. Sentar-se no jumpseat do PR-AYA, para ele, foi mais do que um merecido prêmio.

A bordo do PR-AZA, embarcaram os dois pilotos, Gérson e Newton Magalhães da Embraer; Dilson Gonçalves, que iria fotografar pela Azul e Ivan Ryzovas, da agência de propaganda DPZ, que é quem cuida da conta publicitária da Azul.

Chegou a hora. Fomos até o avião-paquera, o veteraníssimo PT-EDO, o Bandeirante EMB-110C mais voado do mundo, com mais de 38 mil horas. Essa valente aeronave, que havia sido entregue originalmente à Vasp em 1974 como PP-SBD, voaria depois muitos anos para a TAM, antes de ser comprada pelo cmte. Edo e empregada em diversas funções, como lançamento de paraquedistas, carga ou voos de foto como este.

O briefing de segurança foi detalhado: eu e o camera-man deveríamos ficar o tempo todo amarrados por uma cinta atada, através de um mosquete, ao piso do Bandeirante. Sem este dispositivo acionado, a missão seria abortada. Ninguém poderia ficar em pé, solto na cabine, sem estar totalmente amarrado. Safety First!

Eram extamente 07h50 quando os motores PT6 do Bandeirante ganharam vida. Com a porta aberta, o seu som impedia qualquer conversa, a não ser no pé do ouvido. Conversas apenas através de sinais, ou pelo rádio que levava em mãos, na frequencia do Cmte. Edo e dos tripulantes dois E-Jets.

Iniciamos o taxi, seguidos de perto pelo PR-AYA e pelo PR-AZA. Chegamos na cabeceira. Tudo pronto, potência aplicada, em segundos estávamos no ar. Uma fechadíssima curva à esquerda, fez com que o "Bandeco" entrasse, ainda a baixa altitude, na perna do vento. Outra curva fechada de 180º e lá estávamos nós, aproximando-nos da pista de onde havíamos decolado minutos antes. Foi o tempo de ultrapassar a cabeceira e enquadrar o PR-AYA, que já corria pista afora. Debruçado, concentrado no foco e no enquadramento, prendia a respiração pela magnífica visão: o primeiro E195 da Azul, resplandecente sob os céus cristalinos de Campinas, acelerava na longa pista de Viracopos, apenas 100m abaixo de nós. Com mais alguns segundos, rodou elegantemente e decolou, ganhando altura e velocidade rapidamente, pouco depois saindo de meu campo de visão! Uma cena inesquecível, registrada tanto pelas lentes de minha câmera como pelo video da equipe de filmagem.

Coração batendo forte, mal tive tempo de perceber outra curva fechada e, em questão de um par de minutos, lentamente foi chegando perto o PR-AYA e, logo depois, o PR-AZA. Logo em seguida, as três aeronaves da Embraer formavam uma esquadrilha, cruzando o sereno céu da manhã de sábado, rumo a Gavião Peixoto. A luz, ideal, permitiu uma grande quantidade de fotos. O que tinha que fazer era simplesmente orientar os pilotos pelo rádio:

"Azul Três, se puder voar mais próximo um pouquinho... Azul Dois, um tostão a mais de altitude... Se puder levantar um pouco a asa esqerda... Isso, perfeito, mantenha assim!"

Foram mais de 45 minutos de vôo em formação, alternando suavemente as posições entre os dois, a altitude entre os dois E-Jets e nosso Bandeirante. Como havia dito antes, voar com profissionais do quilate daqueles pilotos era fácil demais. Dado por satisfeito, concluímos nossa primeira fase: o Embraer 190 PR-AZA despediu-se e, numa curva ascencional à direita, passou como um caça por sobre o Bandeirante, iniciando o voo de retorno a Viracopos.

A partir desse momento, ficamos somente os dois, o PT-EDO e o PR-AYA, voando em formação rumo ao Rio de Janeiro. Durante essa etapa da viagem, sobrevoamos Campinas e São José dos Campos, antes de entrar no litoral e seguir, a 9 mil pés, sobre a costa até o Rio. Outras oportunidades ímpares de imagens apresentaram-se. Alternava o equipamento digital com a hoje quase jurássica câmera Pentax 6x7, fazendo chapas em filme Fuji Provia, como todo bom fotógrafo da velha guarda.

Duro apenas era suportar o vento e o frio de cinco graus célsius negativos que fazia a bordo do Bandeirante. O tempo deu uma fechadinha lá pela região de Angra dos Reis, mas logo depois voltou a abrir. E foi com um sol maravilhoso que o PR-AYA desfilou sobre o Rio de Janeiro. Entramos pela Barra, depois Leblon, Ipanema. No través de Copacabana, executamos um primeiro 360º, lindo, sobre o mar. A seguir, mais dois giros de 360º, um sobre o Botafogo, outro mais afastado um pouco da costa, antes de partirmos para cima do Maracanã e Redentor. Inesquecível.

Depois de três horas voando em formação, o comandante Pirk comentou na cabine do E195: "Mas esse cara não pára de fotografar!?" Renato Covelo, no jump-seat, riu e comentou: "Não liga não, comandante. Esse sujeito é meio pancada mesmo..."

Como se estivesse lendo pensamentos, naquele instante concluí que nada mais restava por fazer e coloquei as câmeras de lado. Havia feito todas as fotos que havia sonhado e muito mais. Em silêncio, ainda sem poder acreditar nas imagens que havia visto e captado, estava eu lá, debruçado sobre o vão, apenas observando os verdes mares do litoral carioca e, recortado sobre as ondas, o perfil esguio do PR-AYA, voando colado ao Bandeirante.

Chamei a tripulação do Azul Dois e disse que já poderíamos tomar o rumo de casa. Pirk agradeceu. A seguir, bateu continência, despediu-se do comandante Edo pelo rádio e disse simplesmente: "Até daqui a pouco. Nos vemos em Viracopos".

E, como se fosse para coroar a jornada, no segundo seguinte, presenciei o PR-AYA acelerar os motores, produzindo um som que jamais esquecerei. Em segundos, o E-Jet ganhou velocidade e deixou nosso Bandeirante para trás, como que a escrever uma involuntária parábola sobre o notável avanço tecnológico entre estes dois bem-sucedidos modelos da Embraer.

Pouco mais de 45 minutos depois, o PT-EDO tocava suavemente o solo em Viracopos, onde já se encontravam o PR-AYA e o PR-AZA, estacionados lado a lado. Desembarquei, livrei-me de todos os cintos e cordas e mosquetes de segurança. Desci, dei um abraço apertado no comandante Edo, agradecendo todo o seu profissionalismo, simpatia e competência. Então fui lentamente caminhando em direção aos dois E-Jets, sentindo minha alma, mais do que nunca, completamente Azul.

Gianfranco Beting



























































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