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Ernesto Klotzel é o jornalista mais respeitado de aviação no Brasil. Sua história de vida, seu vasto conhecimento técnico e seu texto elegante e conciso inspira tanto os mais veteranos colegas quanto os mais jovens leitores. Nascido em 6 de janeiro de 1927 em Hamburgo, Alemanha, o "Tigre de Bengala" (como gosta de se apresentar aos amigos, em função de sua simpática "marca registrada") é, além de um grande contador de histórias, nosso verdadeiro mestre. Para honra do Jetsite e prazer de nossos leitores, Klotzel assina nossos editoriais desde meados de 2008. Formado em 1951 em engenharia pela Universidade Mackenize, Ernesto nos concedeu esta breve entrevista. / GB.

Jetsite: Quando o senhor iniciou sua carreira dedicada a aviação?
Ernesto Klotzel: Obtive o brevê de Piloto Civil (Aeroclube de São Paulo) ainda na faculdade e comecei a trabalhar como estagiário de Manutenção na Real Aerovias, dois anos antes de formado. Após a formatura fiquei afastado da profissão cerca de dois anos por motivo de saúde. Em uma viagem para cirurgia na Clínica Mayo em Rochester- EUA passei por um período de convalescência em casa de tios em San Francisco, quando visitei a Hiller Helicopters na quase vizinha Palo Alto. Fui encorajado a obter o "Green Card" para poder trabalhar nos EUA. Emigrei para os EUA passando a trabalhar em sistemas elétricos de um protótipo de aeronave híbrida: o Convertiplano "Tilt Wing".

Jetsite: Qual foi sua primeira matéria para o setor?
Ernesto Klotzel: Só veio muito mais tarde, quando havia decidido a voar profissionalmente na Real Aerovias como engenheiro de vôo. Não fazia parte dos meus planos escrever, pois sempre gostei da parte tecnológica da aviação. Como todo bom piloto, só me interessava voar, sobretudo aqueles vôos sem compromisso do Aeroclube e os de planador no Clube Politécnico de Planadores. Voava onde fica hoje a Cidade Universitária em São Paulo. Foi já como Chefe dos Engenheiros de Vôo que, além de voar nos "Constellation" tive de adaptar manuais norte-americanos e emitir boletins de operação para o grupo de "Flight Engineers" da Real. Com a venda da Real para a Varig em 1961, ainda voei como simples engenheiro de vôo nos jatos Convair 990 "Coronado" em meados dos anos 1960 até me desligar por motivos de saúde. Só então é que passei para o ramo da comunicação tecnológica e indústria.

Jetsite: Que matéria o levou a especialização em aviação? Qual era o veículo?
Ernesto Klotzel: Participei (juntamente com o Roberto Muylaert, então Editor-Chefe do novo Grupo Técnico ABRIL) do lançamento de "Transporte Moderno" e, mais tarde de "Máquinas e Metais" e "Química e Derivados", todas da Abril. Fui redator-chefe destas publicações. Mas a aviação, sempre foi minha preferência... Muito antes de me tornar engenheiro.

Jetsite: O Que mais lhe fascina na aviação?
Ernesto Klotzel: Entre muitas coisas, a precisão dos projetos, a disciplina dos ensaios, o espírito de fraternidade ainda encontrado em muitos membros da comunidade aeronáutica e "last but not least"... A própria maravilha do vôo.

Jetsite: Qual é seu aeroporto preferido?
Ernesto Klotzel: Congonhas. Foi lá que ficou a parte mais agradável e gratificante da minha vida. Dela relembro constantemente, toda vez que passo pelo aeroporto pois na verdade ele mudou muito pouco. O que mostra o grau de visão do futuro com que foi projetado e construído.

Jetsite: O senhor acredita no desenvolvimento do setor no Brasil?
Ernesto Klotzel: Na aviação executiva parece ser incontestável, como se poderia esperar da iniciativa privada. Na complicada, burocratizada, míope - para não desfiar uma grande lista de mazelas - aviação comercial existe muito, muito mesmo para ser melhorado - ou para não dizer, iniciado. Basta olhar para o problema dos aeroportos, que parece fazer parte da crônica falta de memória do brasileiro - qualquer que seja o cenário nacional. Se eu acredito que isso vai mudar? Claro! Mas não arriscaria uma previsão.

Jetsite: Que conselhos daria para que o setor crescesse bem organizado?
Ernesto Klotzel: Seriedade de inteções e um elixir para a memória de quem faz acontecer.

Jetsite: Fale sobre os tempos de ouro da nossa aviação. Do que o senhor mais sente falta?
Ernesto Klotzel: Não desejo ser rotulado como dinossauro (ou pterodátilo) ou ainda saudosista dos "tempos de ouro", pois cada um tem a sua nostalgia para curtir. Não só no vôo, como em terra, e mesmo fora da aviação, o que todos os acima dos 40 sentem falta é o relacionamento humano mais fácil e o trabalho menos estressante, bastante comum na era pré-celular e quando ainda se usava o telefone de mesa para uma mensagem rápida ou a própria voz que Deus nos deu para combinar o almoço com o companheiro na mesma sala em lugar de um pernóstico e dispensável e-mail. Sou totalmente à favor da tecnologia mas, nunca em detrimento do "olho no olho".

Jetsite: Cite personalidades admiráveis do setor para o senhor.
Ernesto Klotzel: Brigadeiro Casemiro Montenegro Neto, Ozires Silva, Cmte. Rolim Amaro, estes em âmbito nacional. Sir Richard Branson, Burt Rutan e Steve Fosset (desaparecido) para não termos de recuar muito no tempo.Tem também o James Doolitle. Coronel da USAF, piloto de provas, estrategista militar que, entre outros feitos, conduziu o bombardeio de Tóquio decolando de um porta-aviões com bimotores B-25 - operação julgada impossível na época.
Outro gigante foi o Kelly Johnson, chefe do escritório de projetos da Lockheed durante e no pós-Guerra, grande responsável pelo lançamento de aeronaves revolucionárias, entre outras, o Lockheed Electra, P-38, F-104, Constellation, U-2, SR-71. Outro grande, o Burt Rutan, a quem chamo de "Picasso de Aerodinâmica" por seus projetos inéditos em material composto para aviação "Homebuilt" e principalmente para travessias recorde como o "Voyager", o Global Flyer" e, mais recentemente, as naves-mães e os veículos por elas lançados em vôo sub-orbital inaugurando o turismo espacial. Teria ainda muitos outros na lista, inclusive os indicados anteriormente, mas acho que já é admiração suficiente de minha parte.

Jetsite: E o que o senhor vê de positivo na aviação nos dias de hoje?
Ernesto Klotzel: A força da aviação executiva, o resgate da nossa auto-estima pela Embraer e o oportunismo do marketing da TAM.

Jetsite: Cite três pontos negativos.
Ernesto Klotzel: Acho que um só já se desdobra em um rosário de pontos negativos. A eterna caixa-preta para onde são relegadas todas as boas intenções, promessas e providências que, infelizmente, só vêm à tona após uma comoção (aeronáutica) nacional. Tudo deságua na crônica falta de memória que já mencionei.

Jetsite: Que matéria ainda não fez e gostaria de fazer.
Ernesto Klotzel: Justamente aquela referente à questão anterior. O que aconteceu com a 3ª pista em GRU, com os projetos para CGH, a "defasagem angular" da pista de Marte e acima de tudo, quando começa o processo de seleção do local para o novo Aeroporto Metropolitano - um "must" para os próximos 5 anos?

Jetsite: Qual aeronave o senhor mais gosta?
Ernesto Klotzel: É do tempo das hélices: o inesquecível Lockheed 1049H Super Constellation, a "Princesa dos Ares" que pode ser considerado ao mesmo tempo como a glória e o pesadelo dos engenheiros de vôo pela enorme responsabilidade que lhes era atribuída nas operações de vôo, ao mesmo tempo que exigia uma atenção estressante de horas para a formação de gelo nas hélices, asas, admissões de ar dos motores. . . Uma ameaça constante! Some-se a isto seus motores Wright extremamente caprichosos e pouquíssimos confiáveis. Em cada quatro ou cinco vôos "perdia-se" um motor. Tudo contribuía para uma paixão quase doentia pela "mais bela aeronave comercial já construída no mundo".

Jetsite: O que senhor acha que vai acontecer com a aviação no Brasil em vinte anos?
Ernesto Klotzel: Pergunta inválida, já que é difícil imaginar como será o Brasil, principalmente São Paulo, lá por 2028. Depois... Com meus 81 anos atuais... Estarei "lá em cima" como mero observador, mas torcendo muito por todos vocês.

Jetsite: Ouvimos, lemos e vimos na imprensa geral informações que não procedem. Que dica o senhor daria para melhorarmos nossa cobertura sobre a aviação?
Ernesto Klotzel: Não se aplica ao pequeno, porém crescente, grupo de veteranos e novos colegas especializados que não ficam devendo às melhores publicações de fora. Quanto ao grande número de repórteres da "Geral," o problema da afobação para obter o "furo" e a ignorância geral não existem só no Brasil. Cansei de sugerir que uma TAM, Gol ou Varig (em outros tempos) dessem pequenas palestras e promovessem visitas as suas instalações tendo como objetivo dar um pouco de "cultura aeronáutica" aos jornalistas não-especializados. A situação era a mesma nos Estados Unidos nos anos 30 e levou à criação da AWA - Aviation & Space Writers Association, hoje com milhares de associados no mundo que se comprometem a cumprir determinadas práticas relativas à ética e exatidão das informações.

Jetsite: Então qual dica daria para a imprensa não especializada?
Ernesto Klotzel: Que parasse de especular, de criar hipóteses completamente destituídas de fundamentos e deixasse de contagiar com seus preconceitos as ocorrências aeronáuticas. Sejam elas sérias ou mesmo leves. Isso já seria uma grande coisa, Mas a atração "avassaladora" do furo parece que sempre leva a melhor.

Jetsite: Uma frase para encerrar?
Ernesto Klotzel: "Em Deus confiamos. Tudo mais, checamos." - uma tradução capenga do conhecido "In God we trust. Everything else we check."