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Noite linda na Cidade Maravilhosa, fresca e estrelada, no dia 13 de maio de 2007. Um pouquinho fria para os padrões cariocas, mas perfeita para voar. Desembarquei de um vôo tranquilíssimo da Gol procedente de Congonhas. Peguei minha mala e minutos depois estava no balcão de check-in da Business Elite, a classe executiva da Delta Air Lines. Eram 20h10 quando entrei na fila e 20h15 quando saí, muito bem atendido, por um jovem funcionário, Galleguillos, que me recebeu de forma eficiente e cordial.

Boarding passes finalmente na mão, segui para os procedimentos de imigração: até estranhei. Acostumado com a balbúrdia que é o caótico Guarulhos, em meio minuto já havia deixado os procedimentos burocráticos para trás, de forma civilizada. Como deveria ser. Em seguida, após passar pelo raio-x, segui para a sala VIP da Air France, que é dividida por todas as operadoras da Sky Team, localizada no segundo andar do Tom Jobim. Pequena mas bastante bem equipada, trouxe boas lembranças. E pensar que por aqui, nesta mesma sala, os passageiros aguardavam a decolagem nos vôos de Concorde para a França!

É, o Galeão tem um charme único, que me faz lembrar áureos tempos da aviação comercial. Sim, parte dessa atmosfera única se deve ao seu ar ligeiramente decadente, quase melancólico. Mas é inegável que por décadas, o Galeão reinou soberano dentre os aeroportos brasileiros. Justamente nos tempos em que voar era mais do que um meio de transporte. Era como entrar para um clube, para o "jetset" como se dizia na época. Algo, em suma, muito civilizado. Nesses áureos tempos, a Varig reinava soberana dentre as empresas aéreas brasileiras. Há vinte anos atrás, numa noite como esta de sábado, às 20h30, o Galeão estaria fervendo com dezenas de jatos da Pioneira, partindo para a Ásia, Europa, Américas e África. Hoje, não havia nenhum Boeing da empresa. Aliás, tirando o 767 da Delta, não havia qualquer outro vôo intercontinental partindo do velho e bom T1 do Galeão. É ou não é melancólico?

Fomos chamados para embarque no portão 10 as 21h50. Prioridade foi dada para o embarque dos passageiros da classe executiva, que eram no total 34 dentre os 36 assentos disponíveis. Um deles sempre fica reservado para descanso dosm pilotos durante o vôo. Fui um dos primeiros a embarcar no Boeing 767-332ER, matrícula N197DN, entregue novo em folha à Delta em dezembro de 1997.

Ao entrar a bordo, de cara gostei bastante do novo padrão de assentos da Business Elite. Havia viajado recentemente na executiva da Delta e já havia ficado satisfeito. Agora, com estas novas poltronas, minha expectativa por um excelente serviço ficou ainda mais alta. O interior todo da aeronave estava imaculado. Das divisórias às paredes, os assentos de couro azuis tanto na Business Elite como na classe econômica pareciam saídos de fábrica.

Os passageiros foram muito bem recebidos a bordo, por uma equipe que tinha tanta experiência quanto simpatia. Comandada por Susan, a "Flight Leader" do vôo, a designação adotada pela empresa para seus "pursers" ou chefes de cabine. Susan - e mais duas comissárias e um comissário - iriam cuidar dos passageiros da Business Elite, e uma de suas primeiras funções foi a de oferecer ajuda para acomodar casacos. Depois, passaram distribuindo bebidas de boas-vindas. O tempo todo, foram só sorrisos com todos os passageiros. Realmente muito, muito simpáticos.

A saída do vôo 60 seria mais uma partida pontual, com horário previsto de 22h55. Fizeram melhor que isso: o push-back foi as 22h48, taxi as 22h52, com o 767 pesando 387.893 libras, abaixo de seu peso máximo de decolagem, que é 409.000 libras. Não havia tráfego à nossa frente e logo alinhamos na pista 10. A longa e belíssima 10 do Galeão deveria ser a única pista autorizada para se deixar o Brasil. Fica em nossa mais bela cidade e, do ponto de vista aeronáutico, é perfeita: larga, longa e ao nível do mar. A pista 10, toda acesa à nossa frente, trouxe lembranças de viagens memoráveis.

Voltemos ao Delta 60. Em meio aos meus devaneios, o Boeing iniciou a corrida de decolagem precisamente as 22h57. Nossas velocidades nesta operação foram: V1, 160 nós; V-R, 163 nós e V-2, 169 nós. Corremos bastante terreno: acabamos por sair do chão somente em frente ao antigo hangar da Varig. Trens recolhidos, o 767 subia em frente, cumprindo a saída por instrumentos (SID) Porto 3. Nossa "Clean Speed," a mínima velocidade para "limpar" aerodinamicamente o jato, ou seja, recolher completamente os flaps, foi calculada em 249 milhas para este vôo. Logo depois, estabilizávamos em cruzeiro as 23h15, na altitude inicial de 32.000 pés, o que resultou numa razão de subida de 1.700 pés por minuto, aproximadamente. Tempo estimado de vôo: 09h20, o que nos faria chegar bem próximo ao horário previsto de chegada, 07h20.

As luzes de cabine foram acesas e teve início o serviço de jantar. O cardápio havia sido distribuído ainda em solo. A Flight Leader Susan, havia anotado o pedido de prato principal de todos os passageiros ainda em solo. O menú mostrava o seguinte: para abrir os trabalhos, um amuse-bouche vegetariano, com legumes grelados e acentuados com azeite de oliva extra-virgem. Depois, como entrada, uma salada verde ou sopa de centeio com carne. Pratos principais eram três: filé mignon com molho demi-glacé acentuado por alho, acompanhado por purê de batatas e seleta de legumes; peito de frango recheado com queijo Fontina, batatas ao forno e molho de tomate e azeite; linguine com um molho de Brandy e queijo de cabra, acentuado por estragão e camarões. Este era o prato "assinado" por Michelle Bernstein, a jovem e talentosa Chef responsável pelas criações culinárias servidas nos vôos da Delta. Finalmente, a quarta opção era a mesma sopa da entrada era servida também como prato principal, acentuada por cebolinha.

Depois, opções de queijos e frutas numa bonita apresentação. E para fechar, uma decadente Sundae de baunilha, com tudo o que tenho direito: marshmallow, castanhas, coberturas, o diabo. Fiquei com o filé mignon e estva muito bom.

A carta de bebidas sempre foi um destaque no serviço de bordo da Delta. No menú, que vem juntamente com a carta de vinhos, havia uma lista de seis brancos e seis tintos, mas apenas dois de cada estavam a bordo. O branco escolhido foi um chardonnay espanhol, Pere Ventura, de Penedès. Elegante, com boa acidez, não era nem muito encorpado nem amadeirado demais, este um pecado que parece cada vez mais frequente nos vinhos que se valem desta uva. O outro branco também era um chardonnay, só que italiano, Kaltern Alto Adige, que acabei não provando.

Para acompanhar meu filé, optei pelo tinto australiano, Plunkett Blackwood Ridge, um Shiraz australiano "daqueles": rico, complexo, com muitas especiarias e pimenta. Sensacional com carne vermelha. Como nos vôos que recentemente havia feito na empresa, achei notável a inteligência de Ken Chase, o autor da carta. Mr. Chase privilegiou vinhos modernos, sobretudo do novo mundo, que instigam a curiosidade para o passageiro - e economizam milhares de dólares nas contas do catering da Delta. Destaque também para o Muscat Beaumes de Venise, um belo vinho de sobremesa. Novamente fiquei muito satisfeito com a carta da Delta.

Enquanto o jantar era servido, fiquei da minha poltrona, a 6G, observando o fluxo de trabalho. Dentre as vantagens daqueles que sentam na última fila de uma cabine está a possibilidade de se poder acompanhar o ritmo, a coordenação do trabalho da equipe durante a entrega de serviço. Gostei de ver a dedicação dos quatro comissários da Delta, que trabalharam muio bem em equipe. Destaco sobretudo o fato de que não deixaram copos vazios em nenhum instante. Tanto melhor para se aproveitar a caprichada carta de vinhos da empresa.

No geral, a atitude a bordo foi mesmo excelente, muito simpática e temperada com o agradável "southern drawl" o sotaque do sudeste norte-americano, bem musical. Afinal a tripulação era toda baseada em Atlanta, sede da empresa aérea que mais passageiros transporta a cada ano: a Delta Air Lines.

Hora de dedicar a atenção ao entretenimento de bordo. O N197DN já estava equipado com o novíssimo padrão de entretenimento da empresa, que segue o padrão AVOD - Audio-Video On-Demand. Os videos individuais são comandados pelos passageiros, o que é bárbaro.

Eram 01h30 quando terminou o jantar, depois de voar 2.136 km desde a partida. Aproveitei e testei a poltrona: reclinação satisfatória e espaço entre fileiras excelente. Bastante confortável para vôos longos, sem dúvida.

O assento estava na verdade tão confortável que simplesmente dormi até o início do café da amnhã, quando fui gentilmente despertado por Rayla, a comissária que cuidava da zona onde estava meu assento. Os oito comissários que trabalahm nos 767 da Delta dividem suas áreas de atuação por zonas da cabine. Não fosse pelo gentil despertar da comissária, e teria perdido o café, pois repousava profundamente. Lá fora, o dia já raiava. Sobrevoávamos a Flórida nesso exato instante, passando no través de Fort Lauderdale, que por sinal seria mesmo meu destino final naquele dia.

Tendo queimado em média, por hora de vôo em regime de cruzeiro, 11.400 libras de Jet A-1, (42.000 libras/hora durante a decolagem), o 767 havia ficado mais leve e agora cruzava a 36.000 pés quando iniciou a descida para Atlanta, deixando o nível de cruzeiro precisamente as 07h00. Seguimos a STAR Canuk 4 para a pista 27R, onde tocamos suavemente às 07h20, cravado no horário previsto, tendo voado exatamente 7.621 km em 09h23 minutos desde a cabeceira 10 do Tom Jobim.

Avaliação: notas vão de zero a dez.

1-Reserva: Nota 10.
Perfeita, sem demoras ou esperas telefônicas louvindo aquelas musiquinhas detestáveis.
2-Check-In: Nota 10.
Muito simpático e profissional.
3-Embarque: Nota 10.
Procedimentos rápidos, tripulação super atenta.
4-Assento: Nota 8.
Muito confortáveis, com ótimo espaço para a fileira à minha frente.
5-Entretenimento: Nota 8.
Farta seleção de programas e títulos On-Demand, num padrão excelente.
6-Serviço dos comissários: Nota 10.
Foram sensacionais. Nota 10 mesmo.
7-Refeições: Nota 9.
Estavam saborosas e bem apresentadas, nas quantidades certas.
8-Bebidas: Nota 9.
Como sempre, ótima a carta, uma tradição da Delta.
9-Necessaire: Nota 7.
Espartana: apenas o básico.
10-Desembarque: Nota 10.
Rápido, sem complicações. Mas a conexão seria estressante. Filas homéricas na imigração atrasaram demais a chegada ao portão A6 de onde sairia meu vôo seguinte, o DL 753.
11-Pontualidade: Nota 10.
Partida e chegadas mais que pontuais: saímos adiantadose chegamos no horário cravado.

Nota final: 9,18

Dentre as grandes empresas aéreas dos USA, sempre tive grande simpatia pela Delta. A empresa personifica o jeitão típico do povo do sudeste dos Estados Unidos: cordial e direto ao ponto. Pode-se dizer que a Delta tem um espírito de equipe difícil de encontrar em empresas do tamanho dela, que emprega hoje 49.000 profissionais. Mesmo com tantos profissionais, há um forte espírito de corpo, num clima de "grande família". Se hoje a Delta está em plena recuperação, celebrando recentemente sua saída da concordata, essa recuperação deve -se em grande parte ao forte espírito corporativo que se encontra em cada um dos milhares de colaboradores da companhia. E tem mais: com nova identidade visual, ampliando serviços a cada dia, sobretudo nos vôos internacionais, a Delta Air Lines é uma ótima pedida para quem quer viajar com conforto e segurança.

Gianfranco Beting