Las Vegas é uma cidade que tinha tudo para não ser nada. Fundada em 1905, está encravada no meio do deserto de Nevada, numa região de clima hostil, para dizer o mínimo. No verão, as temperaturas normalmente superam os 40°C, tornando a vida difícil. A vegetação é rasteira, típica de clima semi-árido. A estação chuvosa de Las Vegas vai de janeiro a março. De tempos em tempos, tempestades de areia varrem a região onde se encontra a cidade, que é muito plana. E, no entanto, a despeito de todas essas características, a cidade é um triunfo do engenho humano.
Ela tinha tudo para ser mais um vilarejo esquecido, perdido na imensidão do deserto. Mas da cabeça de verdadeiros visionários, ela se converteu hoje num verdadeiro "Parque de Diversões" da América do Norte, e porque não dizer, do mundo.
Sua região metropolitana tem cerca de 1,9 milhão de habitantes. A cidade, sozinha, atrai quase 40 milhões de turistas ao ano, ou 10 vezes mais do que todas as centenas de atrações turísticas do Brasil. Seu aeroporto é o décimo mais movimentado do mundo. Só esses dados já indicam que alguma coisa lá deve ter sido muito bem feita.
Fica inevitável tecer uma comparação com um país como o Brasil, que se propõe crescer com destino turístico. Pior ainda é quando pensamos que enquanto o Brasil é pródigo em atrações de todos os tipos, "Vegas," como é chamada pelos locais é famosa sobretudo por uma atração única: a indústria do jogo. Seus cassinos, quase todos eles localizados no eixo principal da cidade, o Las Vegas Boulevard (mais conhecido como The Strip) apresentam um número notável de atrações paralelas. Depois de Londres e Nova York, Vegas deve ser a cidade que mais e melhores shows apresenta no mundo.
Mesmo se você não quiser gastar um tostão numa das bilhões de máquinas de caça-níqueis, (espalhadas desde o aeroporto até a funerária local) você tem diversão garantida. Esses hotéis cassinos apresentam em comum ótimos restaurantes, casas de espetáculos e shopping centers integrados de classe mundial. Entre os principais, há o Treasure Island, The Venetian, Paris, Aladdin, Belaggio, MGM Grand, New York - New York, Luxor, Mandalay Bay. Um deles, o Stratosphere, tem uma torre de observação que é a maior dos Estados Unidos e o quinto edifício mais alto do país.
A indústria que move a cidade não é apenas a do turismo. É absolutamente possível passar uma semana na cidade sem apostar uma única ficha, embora não seja fácil. Tudo lea foi pensado para você gastar dinheiro nos jogos. Mas Vegas também atrai pessoas por ter um conjunto de leis especiais, únicas à cidade, que funcionam como um chamariz para gente de todas as partes. Há isenção de vários impostos; a indústria dos casamentos é outro exemplo curioso: paga-se apenas US$ 55,00 por uma licença matrimonial, que é expedida no ato, sem demora nem comprovações nem quaisquer outras dificuldades. Até "padrinhos" de aluguel estão à mão de quem quiser. Por essas e por outras é que 5.000 pessoas mudam-se para a região a cada mês.
Mas para a esmagadora maioria daqueles que chegam à cidade, a grande atração é mesmo o jogo. Gente de todo o mundo roça cotovelos nas mesas de bacará, pôquer e roleta. Vinte e quatro horas por dia, há gente deitando no pano verde milhõe de dólares. O dinheiro flui sem parar.
E é justamente o pano verde do feltro e dos dólares que financiam a construção de alguns dos exemplos mais absurdos da arquitetura kitsch do planeta. Da pirâmide e esfinge do Luxor à reprodução da ponte de Rialto e dos canais de Veneza no The Venetian; da torre Eiffel do Paris ao skyline de Manhattan (com direito à réplica do Empire State e do Chrysler Building) não há qualquer limite ou bom senso. O que vale, parece, é ser o mais estapafúrdio possível. Veja o mega-hotel-cassino Excalibur, que faz uma interpretação do que seria um castelo medieval num deserto norte-americano. Você não sabe se chora de rir ou de nervoso.
Ao final das contas, os três dias que lá passei serviram para matar minha curiosidade por essa cidade imortalizada em tantos filmes, peças de teatro, canções. Deixando meus credos estéticos-arquitetônicos de lado, Vegas é engraçada. Ou melhor, é hilariante, talvez por ser patética, bizarra demais. É também, com tanto brilho, neon e figuras únicas, uma cidade excitante, nos mais variados sentidos da palavra. Enfim, Vegas é única. E é para isso que se viaja. Para se sair da rotina, conhecer o novo, o inusitado, o distinto. Se Las Vegas fosse uma mulher, jamais me casaria com ela. Mas para passar um fim de semana me divertindo, ora, apostaria todas as minhas fichas em sua companhia.